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A Descreditação. A confiança na informação em crise



Já tocamos no grave assunto do desletramento (matéria anterior do blog) e agora vamos para um mais sério ainda, a descreditação. A descreditação foi se infiltrando aos poucos em nossas vidas e agora vai avançando a passos largos. É um fenômeno de todo grave, talvez um dos mais graves que já enfrentamos. Boa parte da nossa população ainda não chegou nesse estágio, mas a parte com maior nível cultural já está vivendo plenamente, e praticando, a descreditação.

     

       Um parágrafo sem dizer o que é, parece até desejo de fazer suspense. Talvez seja. Talvez algum cansaço de colocar “des” antes das palavras, aquilo que “não é mais”. O politizado vira despolitizado, o crente/descrente, o armado/desarmado, o que tem crédito/descreditado. Este processo é a simples atitude de dar credito ou não às informações (e a tudo o que elas contêm e suas consequências). Primeiramente - anos 80/90 - tínhamos um volume menor de informações, então escolhíamos duas ou três fontes, como jornais diferentes p.ex., e chegávamos a uma conclusão sobre quem se aproximava mais da verdade ou daquilo que mais “nos agradava”, e normalmente dávamos crédito aos três, pensando apenas que era uma questão de opiniões - as informações eram verdadeiras; modificavam-se as interpretações. Até os Quatro Evangelhos tratávamos assim. Todos são verdadeiros, mas segundo cada autor. (Hoje se questiona todos eles por não darem espaço maior para Maria Madalena, de repente se eles fossem cineastas teriam dado).

            Ora, a imprensa sempre esteve ligada à questão da informação e da notícia. Através dela sabíamos o que estava ocorrendo, recebíamos os fatos que importavam. Não recebíamos noticias banais, como “batedor de carteira fez nova vítima” - isto só seria notícia em “Nosso Lar”, a famosa cidade espiritual, talvez nem lá. Talvez lá gostassem mais de saber que espíritos maus estavam atacando as muralhas da cidade com raios fluídicos e energias trevosas azuis. Quem diria, existe diversão no mundo dos espíritos. Já estou eu dispersando, coisa deste mundo admirável e novo. Voltemos ao que interessa.

Com o advento da internet tivemos acesso a muitas informações, dados, fatos, pesquisas, imagens, etc. E até mesmo, com o passar do tempo, passamos a ter notícias. Os jornais acabaram criando sites (foram os primeiros a criarem portais), o UOL p.ex. Tudo parecia ir mais ou menos bem, e tudo era mais ou menos previsível até surgirem os smartfones e os apps. Agora a informação tomou uma dimensão nunca antes vista.

            Anteriormente tínhamos um grande jornal - ou até mesmo um pequeno - e ele falava uma “verdade só” para um grande público. Era necessário muita ética e cuidado com os dados, informações, e análises, pois se assim não fosse os leitores não lhes dariam crédito; e deixariam de comprá-lo. Na pior das hipóteses um jornal concorrente corrigia ou “desmentia” o rival. Ainda dizíamos: “Não dá mais para acreditar em ninguém, nem no jornal!” Éramos felizes e sabíamos, pois as notícias não pareciam serem tantas e a vida parecia mais simples. Duas informações ligeiramente desencontradas e achávamos que o veículo de comunicação não merecia grande crédito. Acontecia também da notícia ser produzida, dando-se muita ênfase a um fato pouco notório visando prejudicar alguém ou obter alguma vantagem política. Entretanto, as pessoas conseguiam distinguir em algum tempo que focinho de porco não era tomada.

           Desde sempre houve um grande esforço por parte dos grandes jornais a se adaptarem a toda e qualquer mudança, buscando continuamente fazer seu trabalho, que parecia ser:  levar informação, notícias e análises confiáveis para o seus assinantes, ou compradores. Estranhamente, na internet, aos poucos as notícias, não apenas as informações começaram a se tornarem gratuitas. O acesso à internet também melhorou muito, então as bancas de jornal também passaram a ser abandonadas e toda a sua cultura citadina se foi embora, junto com os engraxates (nem digam que isso foi bom, pois engraxate se dava melhor que entregadores). O que estou dizendo, é que custa caro fazer bom jornalismo e obter boas informações, e se as dá de graça, é preciso encontrar outras formas de obter lucro (ora, se está usando outras formas, para que cuidar da notícia?).

Nos últimos tempos - além de terem demitido milhares de profissionais de imprensa, pois as vendas de jornal despencaram -, a grande imprensa se dedicou a fazer um trabalhinho de prestação de serviço “desmentir Fake News” (isso nem preciso dizer o que é). A imprensa se impôs o trabalho social de dar a informação correta e verdadeira, além de tudo o mais que fazia - manipular pautas e notícias. Nem critico a imprensa, afinal, é notório que todo comércio vende um produto e vende por que as pessoas precisam comer. Se não fosse assim os jornais seriam de Monges Carmelitas descalços. A luta foi insana nas últimas eleições, não eram apenas Fake News de importância coletiva para um grande público, eram as “fakeneuzinhas” espalhadas e pulverizadas pelas redes sociais, Whatsapp e Tik-Tok (sim, dancinha também mente).

Devemos parabenizar a imprensa e os jornais por seu esforço por não desparecer. Entretanto, o volume de informações, e informações falsas, e as formas de fabricá-las chegou num nível tal, que restou aos jornais apenas a manipulação sediciosa do que sobrou das notícias (quando não são produzidas). Aí, sensacionalismo vende, qualquer coisa emocional vende. As pessoas gostam de acidentes de trânsito e de desgraça, então... Aquilo que era ridicularizado no começo dos anos 80 agora é regra. Existia o jornal “Notícias Populares”, agora ele se chama qualquer coisa “News”. Ainda não critico os jornais e telejornais por terem chegado a tanto, afinal precisam sobreviver e pagar as contas e está cada vez mais difícil. Pautam-se pelo Infotenimento, que é a informação com entretenimento (se é que podemos assim chamar os gracejos ridículos de Rodrigo Bocardi).

 Chegamos ao grave momento no qual os jornais, a imprensa, está parando de dar notícias e deixando de se preocupar com a verdade dos fatos e com a sua boa interpretação. E não é maldade dos donos destas empresas, é por que se tornou impossível se fazer uma verificação minimamente adequada dos fatos. Impossível por que são muitas informações jogadas na rede ao mesmo tempo, impossível porque a inteligência artificial gera textos, imagens, vozes, filmes e logo fatos; impossível por que para se verificar in loco as informações é necessário um batalhão de repórteres, carros, fotógrafos, etc. Toda essa longa introdução para eu chegar ao que desejo, a descreditação.

Usei os jornais e a imprensa como exemplos, pois são os mais gritantes. Entretanto, devido ao excesso de informações, notícias, verdadeiras e falsas e ao marketing mentiroso de todos os produtos e de todas as coisas e idéias, chegamos à descreditação. Nós não conseguimos mais dar crédito a quem quer que seja. Não conseguimos tranquilamente aceitar uma informação num jornal, ou no que nos diz um amigo. Não acreditamos de verdade na propaganda da TV ou no marketing. Não acreditamos mais nos políticos, nos militares, nos lixeiros, nos porteiros, nas religiões (apenas nas que dão lucro), nas escolas, faculdades e professores (principalmente os doutores). Só acreditamos em quem não devíamos acreditar, em golpistas. Golpistas de toda ordem, emocionais, políticos, imobiliários, etc. Parece que depois de “influencer” a nova profissão da moda é “golpista” - não que influencer não fosse um. Estranhamente os golpistas sabem o que dizer para nos enganar, e neles acreditamos, até que eles nos fazem perder ainda mais a esperança nas coisas.

A descreditação ocorre porque não sabemos de onde vem as informações, se são verdadeiras ou falsas, não sabemos quem são os responsáveis. E não há quem nos dê garantias da sua qualidade, seja da informação ou dos produtos ou das pessoas. E isso irá piorar muito, pois a imprensa perdeu a guerra e aos poucos está desistindo. Haja vista que cada vez mais usa vídeos de pessoas que lhes enviam, gastam horrores de tempo lendo a opinião de internautas sobre coisas banais do cotidiano e quando os ancoras fazem comentários são do tipo “Hoje vai fazer calor...” Como você vai acreditar num profissional que lhe apresenta um diploma se você escreve no Google “vendo diploma” e aparecem dezenas de sites brasileiros que fazem e vendem diplomas de qualquer tipo para você?! Já não temos apenas Fake News, temos Profissionais Fakes - e muitos. Fora aqueles tolos que acreditaram numa faculdade errada, que tinha um marketing fake.

Bons tempos aqueles onde queríamos apenas uma confirmação: “Você me ama? Ama de verdade?” Devíamos ter aprendido daquele tempo que quando a informação é verdadeira não quer dizer que permanecerá sendo verdade ao longo do tempo. Com o passar dos anos perde a validade. É importante destacar, apesar de toda essa minha fuga do assunto - ele é difícil - que a descreditação é um processo, agora um fenômeno. As pessoas deixam cada dia mais de dar “crédito”. Qual a importância disso? “Quase nada” uma Constituição, p.ex., ela é creditada, não é apenas uma lei. O renome de uma Universidade é creditado - mesmo que ela seja realmente ótima.

O que você fará da sua vida? Depende do crédito de todo mundo, inclusive do seu. A descreditação é um fenômeno muito grave, pois quando não sabemos no que acreditar, acreditamos em nossa verdade, em nossas certezas, em nosso olhos e ouvidos - e incrível, mas eles também são falhos. Tantas palavras, textos e livros de autoajuda e você já percebeu que não consegue mais acreditar neles, ou acredita chorando. Você procura desesperadamente algo em que acreditar, mas até os pastores não merecem mais crédito.  A violência nas escolas é descreditação. Pais e alunos, professores, ninguém crê mais, estão cada um por si. Até na Rede Globo paramos de acreditar - ainda acreditamos em ETs, mas é só por que não fizeram contato.

Caminhamos para a descreditação social. E isso é grave. Claro que é grave, pois já está gerando o caos. Não irá gerar, já está gerando, gerúndio. É aqui e agora. E caos gera loucura e violência. Solução?! Eu sei, mas ninguém quer.

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