Cápsulas de Tálio

Saturday, October 24, 2009

Anti-Pequeno Príncipe V

“(...) - O planeta seguinte era habitado por um bêbado. Esta visita foi muito curta, mas deixou o principezinho mergulhado numa pronfunda tristesa.
- Que fazes aí? - Perguntou ele ao bêbado, que se encontrava acomodado diante de inúmeras garrafas vazias e diversas garrafas cheias.
- Eu bebo - respondeu o bêbado, com ar triste.
Por que é que bebes? - perguntou-lhe o pequeno príncipe.
- Para esquecer - respondeu o beberrão.
- Esquecer o quê? - indagou o principezinho, que já começava a sentir pena dele.
- Esquecer que eu tenho vergonha - confessou o bêbado, baixando a cabeça.
- Vergonha de quê? - perguntou o princípe, que desejava socorrê-lo.
- Vergonha de beber! - concluiu o beberrão, encerrando-se definitivamente no seu silêncio.
E o pequeno príncipe foi-se embora, perplexo.
" As pessoas grandes são decididamente estranhas, muito estranhas", dizia para si mesmo durante a viagem.”


Essa de tão séria coloquei a citação inteira. Isso não é metáfora. É discriminação. Nada contra quem bebe, não incentivo e nem desincentivo. Quando se trata de alcoolismo é problema de saúde. Se o bêbado tem vergonha é por que ele não tá sozinho naquele planeta e alguém faz com que ele se sinta assim. Além disso, pode se tratar de uma realidade paralela, e o pequeno príncipe pode estar se vendo no futuro, bebendo, depois de criar e semear ilusão por todos os lados, descobriu o tempo que perdeu e fez os outros perderem... claro, beber também é uma perda de tempo... Mas, quem bebe sabe por que o faz. E só não deixamos as pessoas beberem até cair, por que não queremos levar a carga nas costas que elas significam. Em outras palavras, o tempo que o Pequeno Príncipe gastou com a flor, tão importante, não significou nada no que diz respeito ao bêbado. Assim que ele não compreendeu o que havia li ele foi embora. Afinal, problemas verdadeiros são difíceis de solucionar, e então não interessam. Pena que o Bêbado tinha vergonha de beber... num planeta sozinho, se desejasse beber, eu beberia!

Anti-Pequeno Príncipe IV

“Foi o tempo que perdeste com tua rosa, que fez da tua rosa tão importante”.

Mas não se esqueça, o tempo da rosa é diferente do teu. Ela morre mais rápido. Além disso, ela era totalmente importante desde o primeiro momento, por isso você decidiu gastar seu tempo com ela. O passar do tempo a fez se tornar mais intima, fez você conhecê-la melhor... mas, por alguma razão estranha, toda importância que ela iria ter, já estava ali, no primeiro olhar. Então assuma as perdas e as suas escolhas, justificá-las não lhe fará nenhum bem quando o tempo da flor se realizar completamente.
A disseminação da metafórica estória do Pequeno Príncipe é como uma montanha de chocolate trufado cheio de marshmellow que não tem fim. Atiça a gula, faz bem, equilibra o sistema nervoso, mas engorda demais criando ociosos emocionais. E assim como uma montanha de doce ao ar livre, atrai moscas e parasitas de toda espécie. Ou a vida tem encanto em si ou não tem. Uma metáfora tem muito valor, desde que se a entenda profundamente, ela não se propõe como uma verdade... se você for um leitor superficial e romântico... não leia o Pequeno Principe, ele te fará mal, mesmo que você goste de chocolate.

Anti-Pequeno Príncipe IV

“Tu és eternamente responsável pelo que cativas...”

Esta é uma boa frase se você gosta de se achar importante e ter alguém que dependa de você. Mas a palavra “cativas” já tem em si um monte de grilhões. Prender alguém a si, tirar seu desejo por liberdade, insinuar que sem ela você não vive e vice-versa... parece bem longe do amor verdadeiro. Se você dá de graça do que tem, nada deve voltar para você. E não existe maior amor que este. Senão você é apenas um esfomeado que deseja alimento o tempo todo e mantêm a vitima perto de si com lisonjas estúpidas. Os dois cheios de grilhões, imóveis para sempre... Agora sei que depois que o Pequeno Príncipe voltou para seu planeteco, após a viagem inicial, ele nunca mais saiu. Cuidou da flor, até ver ela morrer... por que afinal as flores morrem...depois ficou fazendo poemas pra ela e arrancando Baobás... e revolvendo seus vulcões... vidinha besta quando se pode pegar carona nos pássaros e viajar pelo universo não é?!

Anti-Pqueno Príncipe III

“O que torna o deserto belo, diz o principezinho, é que ele esconde um poço em algum lugar.”

Ou você gosta do deserto ou não gosta. Ele é belo se o achar belo. Ele não precisa de ter poço para ser encantador. Se você está com sede e olha cheio de esperança para um deserto, você está louco. Procure o caminho mais próximo e saia dele. Se você ama o deserto, aprenda a lidar com ele, ou leve uma boa provisão de água. Agora, se você for autodestrutivo, vai fundo, fique imaginando que um deserto que esconde um poço é um charme... cedo ou tarde você morre de sede.

Anti-Pequeno Príncipe II

“Disse a flor para o pequeno príncipe: é preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas.”

Tendo em vista as lagartas, posso dizer que as borboletas são superestimadas. As primeiras te comem vivo, as segundas tratam de voar rapidinho depois que saem do casulo. Belas de longe, feias de perto. Do ponto de vista da flor... melhor um saquinho na cabeça e inseticida pras lagartas. Quem ama o feio, belo lhe parece, mas continua sendo feio, e ser enganado por uma percepção ruim de estética, não me parece um bom registro de felicidade. Se importa ser feliz, é sem desculpas. Sem subterfúgios para uma vida desgraçada, sem enfeites notoriamente enfeites. Se a vida como é não te basta, não crie fantasias em torno dela, e nem as dissemine para os outros, passe a apreciá-la como é. Não suporte as lagartas por causa das borboletas, ame-as, conheça o seu valor. Uma lagarta é uma lagarta, e nem todas viram borboletas. Se uma vai te comer, saiba disso.

Friday, October 23, 2009

Anti-Pequeno Príncipe



“Se tu vens as quatro
Desde as três eu sou feliz...”

E se as quatro tu não chegas...
Continuo feliz a te esperar até as cinco...
Mas se tu não vens...
Ansioso te espero até as seis...
As seis e meia já estou triste, te esperando ainda
As sete, arranco os cabelos e me pergunto: o que é que há? Tá pensando o que?
As oito, jogado no chão, já sou desespero...
As nove, quando tu chegas enfim... já não quero mais te ver.
Não há expectativa de felicidade que o desprezo não destrua.

Saturday, September 19, 2009

Que o Tempo seja bom com você!

Que o Tempo seja bom com você
Que ao passar ele preserve sua alegria
Que a saúde não lhe falte
A constância seja o seu sorriso
A perseverança amiga da sua fé...
Que as horas sejam minutos, segundos
E que todos se contem como pequenas eternidades...
Que o Tempo seja bom com você
Que ele preserve seus amigos, amores e a lembrança dos amores
Que a sua infância seja a memória de todas as horas...
Que seu sorriso seja o de uma criança eterna...
Que sua história não se conte por passados
Mas que seus futuros sejam sempre um presente novo
Preserve, o Tempo, a sua doçura
E que o brilho dos seus olhos jamais se apague...
Nas trevas que ele lhe dê aguarde a luz, pois ela também virá...
Que seus inimigos em amigos se transformem
Que a sua luz brilhe cada vez mais...
E que o cheiro das suas aspirações,
Faça inveja ao perfume das flores!
Que o Tempo seja bom com você!
Que ele preserve seu corpo,
As marcas no seu rosto sejam leves...
As rugas... cicatrizes de sorrisos...
E que a sobriedade não disperse suas loucuras...
Que seus pecados sejam perdoados...

É a única coisa que te desejo...
Que o Tempo seja bom com você.

Saturday, August 29, 2009

A Gripe Suína - A Boa Vida dos Galos Brasileiros!

Ontem me deleitei com uma saborosíssima reportagem da Rede Globo. Versava sobre a Gripe Suína, H1N1; seriedade do assunto à parte, sempre me chama atenção a ostensividade da mídia no Brasil. Lembro-me bastante bem do caso Isabela, com a eterna desculpa de desejarem informar, a TV brasileira nos bombardeou diuturnamente com as notícias mais importantes e menos importantes do caso. Eu, já sabendo o que a repetição insistente de um mesmo tema faz, já aguardava as conseqüências, pouco mais de um mês, mais duas ou três crianças foram jogadas de edifícios, desta vez sem o mesmo sucesso.
Numa reportagem que foi colocada ao ar na parte da tarde, depois de semanas de incessantemente perturbarem a pobre da Isabela, alguém da Rede Globo resolveu fazer uma matéria numa creche, pois, pasmem, as crianças estavam assustadas. Pois, acreditem se quiser – não se sabe por que razão – uma parte delas começou a ficar insegura e com medo de que seus pais lhes dessem o mesmo fim. Mais de um mês depois, alguém se lembrou que havia crianças assistindo todo aquele espetáculo, e claro, prejuízos emocionais haviam ocorrido. Depois disso, o assunto morreu.
No caso da Gripe Suína, que apelidei carinhosamente de a Gripe do Porquinho, afinal, já estamos ficando íntimos, não estão ocorrendo tantos exageros, mas uma matéria muito saborosa foi levada ao ar. Tendo em vista a chegada das matrizes do vírus ao Instituto Butantan, e que este se prepara para produzir a vacina, os ilustres repórteres perceberam que essa notícia não rendia muito tempo televisivo, e claro, as pessoas estão muito interessadas em detalhes, bem... lá foram eles criarem os detalhes. Para espanto dos avisados repórteres, o Instituto Butantan inicia o processo de fabricação da vacina a partir de ovos. Até aí, a noticia não rendia muito.
Aí, alguém teve a idéia de verificar de onde vinham os ovos. Bem, claro, leitor, da galinha. Se bem que temos outras aves que põe ovos e alguns répteis também, mas estes últimos não são muito cooperativos como se sabe. E acho que se precisássemos de ovos de cobra iríamos acabar precisando de mais soro antiofídico, só para o caso das coisas enrolarem hehehehe. A equipe de reportagem abalou-se até a cidade de Brotas, no interior de São Paulo, famosa por suas cachoeiras, paragens paradisíacas, areias cantantes, e agora, por sua granja espacial.
Qual não foi a surpresa da equipe ao chegar ao local e ser barrada na granja?! Já ouvi de tudo, barrados no baile vá lá, mas barrados na granja?! Neste ponto a reportagem começou a me interessar. Bem, não podiam entrar no local, na granja espacial, ou seria especial? Em razão de possíveis contaminações que poderiam ocorrer. Aplaudi! Eu, acho que o dono da granja não deixou entrar tendo medo de que tentassem entrevistar uma galinha! Já imagino a pobre da penosa, depois de uns poucos póóóco-po-póóócos, sendo interrompida antes de terminar a frase, toda envaidecida por aparecer na Globo. E, já sabem, nada pior do que uma galinha com mania de artista! O dono da granja foi sábio.
Mas a reportagem não poderia deixar de ser realizada e, pasmem, conseguiram uma granja similar... Coisa estranha, né?! Se não podiam entrar em uma, como é que entraram em outra? Bem... entraram. Lá, a valente repórter descobriu que a granja é climatizada, e que para a produção de vacinas os ovos necessitam ser “galados”, tudo ia bem até a repórter resolver explicar o que é galado, são “ovos germinados” e claro, para isso aquele local era diferenciado, pois pasmem, havia galos no local. Mas não somente isso, as galinhas são todas criadas fora de gaiolas, para não ficarem estressadas... afinal, estão nas cloacas delas a chance de salvar o Brasil... Bem, com as últimas alternativas que temos visto no Senado, não é de se espantar que dependemos das cloacas de honestas galinhas, honestas porém vaidosas – não esqueçamos estes riscos.
Mas, aquilo que conhecemos por ouvir falar, ou por sermos, testemunhas como é o meu caso, um galo sozinho dá conta de um monte de galinhas, às vezes um se vira com quase umas quarenta, isso quando ainda não bate no galinho novo que tenta crescer pra se multiplicar. Mas, lá, nessa granja espacial, além de tudo ser desinfetado, desbacterizado, refrigerado, as “meninas” contam com um incentivo especial, um Galo para cada dez galinhas!! Isso para terem certeza de que os ovos serão necessariamente “galados”.
Bem, eu fiquei aqui imaginando. Que coisa fantástica!!! Existe algo de bom na Gripe do Porquinho, ela fez a felicidade geral dos galos astronautas da nação! Porra mêuu!! Um monte de galo cuidando de poucas galinhas, com ar condicionado, banho anti-bactericída, mó orgia penácea!! E com a vantagem de aparecer na Globo, coisa que, sem penas nunca consegui hehehehe – hei de providenciar algumas! Falta saber se as galinhas começaram dar uma de difíceis depois de aparecerem na TV! Bem...quem diria que a Gripe do Porquinho iria beneficiar a vida sexual dos galos. A moçada tá até se sentindo importante!
Em tempos de cotas raciais, sociais e de fumantes, me dei conta que todas eram branquinhas, e senti um certo preconceito... Afinal, não havia nem galos e nem galinhas de cores diferentes, isso sem falar das galinhas caipiras... Uma injustiça! Fico com medo da próxima reportagem: Galinhas pretas são destinadas apenas à macumba...
Bem, depois destes ovos fazerem a alegria dos galos - ninguém se preocupe com a promiscuidade, as galinhas não são cristãs, fiquei sabendo que se dedicam à prostituição sagrada, coisa de uma deusa antiga, uma tal de Ishtar -, eles são levadas ao Instituto Butantan, onde é inoculado a matriz do vírus. Depois de infectados, os “germens” – nada de bebês pintinhos – absorvem o vírus e o reelaboram, e depois os “germens” ao colocarem suas secreções para fora, leia-se “xixi”, o reabsorvem novamente, e mijam de novo e de novo. Depois os cientistas vão lá, colhem o “xixi do pintinho” e começam a fazer a vacina. O que acontecem com os ovos depois? Ah... são descartados! Hummmm Péraeeeeee!! Já diz o leitor me entendendo. Quer dizer que ocorre aborto?! Há um pinticídio em massa ocorrendo neste momento! Onde estão as entidades de proteção aos direitos dos animais?! Agora que a saúde deles está em jogo, pode abortar pintinho, né?! E as igrejas que são contra o aborto?!
Aqui vão os meus protestos, por que só os galos e galinhas, que nem impostos pagam, têm direito a Motel com ar condicionado, viverem livres, limpinhos e cheirosos, fazerem “amor” a vontade, aparecerem na Globo, e ainda não precisam se responsabilizar pelos resultados?! Bem, dos males o menor, foi uma reportagem só. Afinal, tendo em vista o fenômeno da repetição de informações alterarem comportamentos, poderíamos correr o risco de todas as galinhas quererem essa regalia!
No mais leitor, choca-me o fato de que atualmente confio mais na cloaca das galinhas e de seu apetite insaciável por sexo, do que no Senado brasileiro. Se bem que por lá também deve haver “pintinho”, pena que não serviram pra fazer vacina e nem foram abortados. Salve o Galo brasileiro!! Viva o galinheiro!! Ops...acho que exagerei no fim hehehehe.

Wednesday, August 19, 2009

Um Veado


Têm dito: “Diga-me com quem andas que direi quem és...”

Numa destas terras distantes e estranhas, onde as fábulas acontecem, estendia-se por uma imensa área um campo. Ele era todo recoberto de verde. Animais de todo tipo procuravam aquelas plagas para folgarem de seu desassossego cotidiano. Esquilos, Gambás, Avestruzes, até mesmo Elefantes pousavam por aquela paragem. Mas os grupos que dominavam todo aquele território eram os dos Antilopes, Gazelas e Veados.
Levavam uma vida boa e tranqüila, viviam comendo pequenas frutinhas rasteiras, alguns insetos, arbustos e saborosa grama. Antílopes e Gazelas jamais foram reconhecidos como animais dados à filosofia ou a pensar profundamente sobre seu destino sobre a terra. As perguntas clássicas: Quem sou? De onde vim? Para onde vou? Jamais lhes haviam passado pela imaginação. No máximo discutiam a qualidade do pasto, quando este era mais saboroso, em que época do ano crescia esta ou aquela planta... Enfim, o Paraíso na terra, com todo o tédio que isso significava.
Já os veados, de menor porte físico do que os outros ruminantes, andavam em pequenos grupos, faziam tudo em conjunto. Às vezes surgia um veado um tanto quanto dissidente, ficando mais afastado do que os outros, mas logo era prontamente reintegrado ao grupo. Entre todos os animais dali, talvez por serem tão gregários, os veados preocupavam-se mais a respeito das questões do Ser, do Destino e da Dor. Foi neste meio que surgiu Nestor.
Nestorzinho, para os íntimos, era um veado complicado, daqueles que os psicólogos e psicanalistas adoram. Filho de pai ausente e mãe dominadora, um caso clássico. Ele não era muito de se enturmar, e quando conseguia ser aceito e ouvido, já vinha choramingando sobre o quanto era diferente e incompreendido.
Tudo começou numa bela manhã, quando este rapaz assistiu uma palestra do veado chefe, o grande Ircano. Em sua sapiência, Ircano, informava aos neófitos veadinhos que eles poderiam ser o que quisessem, bastava que compreendessem a sua verdadeira natureza. Eles deveriam olhar para dentro de si, e lá dentro, examinando seus sentimentos e razões estranhas, encontrarem o seu verdadeiro papel no mundo. Todos os veadinhos levaram muito a sério as palavras do chefe. E, como estavam em fase de crescimento, cada um saiu pelo imenso campo pensando sobre o que iriam ser quando crescessem. Mas, claro, como eram muito novinhos, não perceberam que com uma simples olhada à sua volta o futuro já estava completamente discernível. Seriam veados adultos comedores de grama.
Nestorzinho, teve essa estranha presença de espírito. Vislumbrou tudo à sua volta e entendeu. Agora ele se perguntava se poderia ser outra coisa. Ele possuía um certo espírito científico, era muito observador. Quanto mais olhava os diversos tipos de animais, mais se convencia, de que quem fazia o animal ser o que ele era, era o grupo ao qual pertencia. Todos nasciam simples e ignorantes, depois os grupos iam ensinando a cada um o que eles eram e deveriam ser. Foi imbuído dessas idéias que primeiramente procurou sua mãe e lhe disse que desejava ser outra coisa, a resposta foi simples e pragmática: Deixa de tolice, meu filho! Você é um veado e sempre será um veado! E completou, como era de seu hábito, “apenas não seja um veado como o seu pai! A adolescência viadícica não deixou que Nestorzinho ouvisse as considerações de sua mãe. Foi então debater a questão com o sábio Ircano. Ele com certeza compreenderia as suas necessidades.
Depois de ouvir as confabulações do jovem, Ircano, sentenciou: Você é o senhor do seu futuro! O que você fizer de si você será! O jovem se encheu de ânimo, afinal era a palavra abalizada do mais sábio.
Nestor então, pôs-se a observar vários animais. Sua forma de andar, de agir, seus ruídos, o que comiam, como comiam. Até imitou alguns deles, até que enfim, fez sua escolha. Em pouco tempo começava a surpreender a todos, adultos, jovens e filhotes. Dedicava-se à corrida, como se desejasse ser o mais veloz entre todos. Às vezes podia ser visto deitado entre os arbustos, como se espreitasse. Ficava horas assim... vigilante. Chegava a ser um pouco engraçadas as caras de ferocidade que treinava. Às vezes causava rebuliço quando saltava sobre seus amigos fazendo grunhidos estranhos. E quando agarrava algum deles, sempre um adulto precisava intervir por que ele não largava a presa. Podia ser visto andando com o peito inflado, tal como se fosse o mais orgulhoso e altivo cabrito montês. Alguns riam da sua performance, e até caçoavam, dizendo: Lá vai o Rei dos animais!
De tanto fazer exercícios físicos cotidianamente, Nestorzinho crescia e se tornava o veado mais vigoroso e forte de que aquela manada havia tido notícias. Sua personalidade esquisita às vezes assustava. Às vezes do nada ele urinava sobre uma região e dali dava terríveis brados, que ninguém conseguia distinguir, mas eram grunhidos assustadores. Nestas suas tentativas de ser uma outra coisa, ele já havia notado que conseguia sucessos importantes, mas a genética não o ajudava muito. Mas, também aprendera com o grande Ircano, que a genética não é tudo. Passou então a buscar modificações importantes, afiava seus dentinhos achatados em pedras e cipós, até conseguir que estes se tornassem em dentes pontiagudos e afiados. O passo seguinte foi parar de comer grama e vegetais, passou a se alimentar de insetos. E, horror do horror, foi surpreendido, pelo grande Ircano, comendo um sapo... depois uma ratazana. Algumas Gambás começaram a desaparecer misteriosamente...
Os veados começavam a olhar Nestorzinho com desconfiança. Ele já não era mais motivo de chacota. Eles não ficavam mais próximos a ele. E, Nestorzinho entendeu com essa atitude que ele já estava se transformando em outra coisa. O Grupo não o encarava mais como um igual, o simples comedor de grama. Quanto mais ele observava os grupos andarilhos dali, mais sentia que havia necessidade de adaptações. Depois de seqüestrar e dar fim a um porco espinho, tirou sua pele espinhosa, de alguns espinhos fez garras e do que restou fez um estranho chapéu que se assemelhava a uma cabeleira. E passou andar por aí...
Foi numa noite de lua cheia, após ouvir estranhos sons ferozes vindo ao longe, que ele percebeu que a hora havia chegado. Espreitando no silêncio da noite, atacou a pauladas os adultos, mutilou terrivelmente seus corpos com suas garras mortais, enchendo o espaço com seus grunhidos terríveis. Espantou para longe todos os outros veados, que fugiam horrorizados diante do monstro no qual ele havia se tornado. Todo cheio de si, Nestorzinho viu o dia amanhecer. E, no horizonte ele divisou o grupo de animais ao qual havia feito esforço para pertencer. Ficou extremamente feliz, pois com suas atitudes e gestos provara ser digno deles.
Com sua cabeleira ao vento, com sua grande força física, dando grunhidos intraduzíveis, correu em direção a eles. Rápido e forte, seguro de si. Como se fosse um Deus entre os veados. Atirou-se em direção aos Leões.
O chefe do grupo dos Leões não entendeu o que acontecia, e se perguntava: O que aquele veado esquisito está fazendo? Para ele era apenas um bicho estranho e medonho. Mas, assim que se defrontaram, Nestorzinho com um imenso sorriso nos lábios, mostrando seus dentes afiados, o Leão o devorou.

Têm dito “diga-me com quem andas e direi quem és...”
O que não disseram é que é necessário avisar antes o Leão
.
Do livro ainda inédito: Fábulas Cruéis

Sunday, August 16, 2009

Não, o Cristianismo NÃO é Romano!

No ano da graça de 1999 eu era Professor de “reforço” em um cursinho de Campinas, nesta função também era encarregado, junto de outros professores da área de história a corrigir e colocar on-line as respostas das questões dos vestibulares, antes mesmo das universidades para as quais o exame foi prestado pelos alunos. O texto abaixo surgiu do fato de uma das respostas elaboradas por mim para a questão típica dos vestibulares, “cite: as influências Romanas mais importantes para a cultura ocidental”, ter sido questionada quando coloquei entre as influências do Império Romano o Cristianismo. Um professor de Literatura, que estava em “alta” no cursinho questionou minha resposta, e estranhamente o seu douto saber sobre o assunto prevaleceu sobre o meu. Ele formado em Literatura e eu em História com ênfase em História das Religiões. Na época, como eu precisava muito do emprego, tive de engolir. Mas, minha indignação deu à luz um texto divertido e irônico que agora resolvi publicar. Nunca o enderecei ao seu destinatário, e espero que mesmo hoje ele não venha a lê-lo. Divirtam-se! Naquele tempo eu ainda me dava ao trabalho de responder às tolices humanas, e claro, deixava á mostra minha enorme vaidade hahahhaha. Espero que o conteúdo do texto não deixe ninguém confuso, leiam tudo com uma carga de extrema ironia .

Não, o Cristianismo não é Romano

Este texto é um mea culpa do professor Luiz Vadico, pois diante de uma das questões da Fuvest ele equivocou-se ao afirmar que o cristianismo seria uma das influências sobreviventes da cultura greco-romana no ocidente.
Num mea culpa deve-se colocar todas as razões sólidas pelas quais julga-se culpado, é o que se fará então.
Jesus Cristo nasceu na Palestina, iniciando o atual calendário Mais ou menos por acaso essa região estava sob domínio dos Romanos desde o séc. I a . c., evidentemente que isso foi um mero acaso. Coincidência interessante desta época é que os Judeus estavam esperando um Messias (ungido), que os libertasse do poderio militar dos romanos e instaurasse o tempo de Deus ou o Reino de Deus na Terra. Só por ironia da História, ou de Deus, vieram apenas alguns Messias: João, Batista; Jesus Cristo, Bar Cocheba, alguns chefes zelotas, entre outros. Também não é importante o fato dos romanos terem uma cultura altamente assimilacionista com os conquistados e também não importa se a influência é de mão dupla, ou seja os conquistados também foram influenciados.
Tudo bem que Jesus nasceu em Belém por causa de um recenseamento romano, mas isso não conta. Posteriormente teve que fugir pro Egito, graças as inomináveis ações de Herodes, um rei não hebreu imposto à palestina por Augusto, primeiro imperador romano. Mas essas afirmações encontram-se apenas nos Evangelhos, textos sabidamente não confiáveis.
Assim mesmo, podemos remeter-nos ao texto de Marcos, o mais antigo + - 70 d.c., segundo a tradição escrito por João Marcos e ditado por Pedro, uma vez que esse não sabia escrever em latim língua dos romanos. O texto em questão era dirigido aos romanos. Mais um motivo prá não se acreditar no cristianismo romano, pois a tradição que diz Pedro ter morrido em Roma até hoje não foi comprovada.
Além disso, a suposta liderança de Pedro na igreja primitiva é facilmente contestada consultando-se os Atos dos Apóstolos, onde claramente Thiago é o líder da comunidade judaica em Jerusalém, cidade essa chamada de Élia Capitolina depois que foi destruida por Tito em 70 d.c., razão pela qual não faz a menor diferença a existência de Thiago. Claro que essa forçassão de barra nada tem a ver com o fato do cristianismo ter adotado posteriormente o simpático nome de Igreja Católica Apostólica Romana, associando-se ao poder político temporal no quarto século depois de Cristo.
Tudo evidentemente se trata de uma questão política, pois em termos de pureza doutrinária Jesus obviamente era Judeu e como judeu mandou seus discípulos pregarem sua doutrina, claramente judaica com alinhamento óbvio com o profetismo tradicional judaico, apenas para os eleitos de Deus: os judeus. Este alinhamento com os profetas é bem claro no famosésimo Sermão da Montanha, montanha essa que ninguém sabia se ele estava subindo ou descendo (meros detalhes). Evidentemente estamos cada vez mais próximos da finalidade deste mea culpa, pois Jesus não tinha nada que ver com a religião que se diz cristã.
O verdadeiro fundador do cristianismo foi Paulo, todo mundo sabe disso. E fundou-o numa epístola chamada “Aos Romanos”. Isto não é de se estranhar tendo em vista que em termos de antiguidade os textos de Paulo são mais antigos que os de Marcos. Mesmo assim, a “adaptadinha” que Paulo deu em Jesus Cristo para os Romanos teve o pequeno mérito de fazer o Galileu sobreviver, pois Paulo inseriu uma coisa que é ausente dos discursos de Jesus (com exceção de João, muito posterior em datação aos outros evangelhos), a salvação.
Bem, lembrar outros cultos salvacionistas como o de Ísis e o de Mitra, altamente em voga no mundo romano do século I não é importante, mesmo que o mitraísmo tenha sido quase completamente absorvido pelo cristianismo, inclusive com uma cópia do ritual da missa (sem falar no chapeuzinho do papa, que se chama MITRA papal), a salvação obviamente, com perdão dos pecados sempre foi prerrogativa do cristianismo, que agora já podemos chamar de Paulinismo.
Mas estes textos não podem ser confiáveis completamente...são textos apologéticos, então vamos para os multi amados acadêmicos. Fustel de Coulanges, na obra clássica “A Cidade Antiga” defendeu a tese (comprovada e corroborada por todos os meios acadêmicos) que o cristianismo só foi possível por que o Império Romano dissolveu as fronteiras da cidade antiga, modificou a territorialidade de tal forma que isso deu condições para o surgimento de um Deus desterritorializado, um Deus único e universal. Bem, mas isto não importa por que os acadêmicos gastam a vida pesquisando e mentindo em suas conclusões, conforme dançam as ideologias que os mantêm remunerados.
Bem e se Fustel, esse caro homem desatualizado do séc. XIX está equivocado o que se dirá de Karen Armstrong, historiadora das religiões, no novo clássico “Uma História de Deus”? Ainda por cima tem a agravante de ser mulher...tsc. tsc. tsc.. Essa historiadora, entre outros deméritos, só fez repetir as influências que o cristianismo recebeu dentro do império romano, como o: neo-platonismo de Jâmblico (absorvido por Origenes) e mais posteriormente por Santo Agostinho, sem a doutrina da reencarnação é claro. O Platonismo crasso e escrachado dos Gnósticos, bando de judeus helenizados e esoterizados que atuavam na Asia menor, que adotavam Plotino, etc.
Nem adianta entrar nas discussões do século dois com Clemente de Alexandria, e muito menos saber que foi Constantino que (imperador de Roma) convocou o Primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia, que reformulou e deu “a cara” do Catolicismo Romano, na disputa famosa entre Atanásio e Árrio... claro nada disso importa ou é conveniente diante de uma fé pura.
Diante de uma fé pura deve-se acreditar que Jesus fundou o Cristanismo e que ele é essencialmente o Messias, não o judeu, mais o católico. Todos os outros absurdos que os historiadores escreveram, sobre a sobrevivência de textos e cultura romanos a partir da igreja cristã durante a Idade Média é tolice, ainda mais se remetermo-nos ao Império chinês, desculpem ato falho, quis dizer Bizantino. Este Império estranho tinha algumas opiniões diferentes á respeito do que era o cristianismo e aí criou o seu próprio o Ortodoxo Grego.
Para ampliar meus equívocos enquanto historiador das religiões, um tal de João segundo não sei quem, escreveu o Apocalipse, que hoje só perde em autoridade prá Nostradamus. Não obstante ser um gênero literário bastante comum nos dois primeiros séculos de nossa era, este obviamente está com a verdade quando diz que a besta apocalíptica tem cinco cabeças e sobre ela está sentada uma mulher cujo nome é Babilônia.
Não importa também que Babilônia era o nome pelo o qual os judeus, quando perseguidos, nomeavam Roma, e que esta cidade que originou um Império (mas que não originou o cristianismo) ficava assentada sobre cinco colinas.
Nada disso importa, pois quando um historiador pode ser preterido em sua própria área por um professor de literatura, tudo pode acontecer, inclusive a ficção, área por onde dileta o caro profissional, pode ser a essência da realidade.
Uma vez que fui clara e obviamente rebaixado para o plano da ficção, prefiro concordar, por uma questão política evidentemente, com o caro amigo e posso dizer seguramente que o cristianismo não é uma sobrevivência da influência greco-romana na cultura ocidental, mesmo quando o Papa JoãoPaulo II, esteja querendo canonizar Sêneca, um pagão estóico que viveu em Roma no século I e que “influenciou” os primeiros cristão com sua mensagem de tolerância – achei estranho isso por que ele nunca pregou tolerância para com os cristãos, mas tudo bem o Papa também não é um dos melhores.
Não bastasse tudo isso, todos os livros didáticos (desculpem a citação sei como essas obras são falhas) trazem o item religião como sendo de influência greco-romana sobre o mundo ocidental e a religião, claro é o xintoísmo.
Como todo mea Culpa deve ser seguido da mais absoluta verdade e de um reconhecimento completo do equívoco, e tendo em vista que a ficção prevalece sobre a documentação e a pesquisa acadêmica, consegui estabelecer a verdade dos fatos: o cristianismo não é uma influência greco-romana e vou provar por que.
Zeus (também chamado de Júpiter – não direi por qual povo) enamorou-se de um belo Arcádio, um tal de Ganimedes. O moço belo, pastoreava suas cabras, quando Zeus aparecendo em toda sua glória presenteou-o com um galo dourado...o rapaz ficou tão maravilhado com o presente que não teve outra alternativa...entregou-se aos afagos e carinhos de Zeus.
Zeus em retribuição fez com que os homens chamassem uma lua do planeta Júpiter de Ganimedes, nesta lua remota e desértica, até um pouco fria, nasceu um esquimó, filho de Ganimedes (pasmem, ele engravidou). Uma nave de venusianos trouxe a criança para a terra, criança filho de um Deus único (Zeus segundo os Estóicos). Criança filho de Deus único só pode ser Jesus Cristo...bem o resto da história vocês conhecem.
De tudo o que está escrito acima, reconheço a capacidade do meu interlocutor de corrigir os erros de português que de propósito ficam como estão, afinal ele tem que ser útil ao menos em uma área e de preferência para a qual tem formação.

Friday, July 31, 2009

Sobre Pizzas e cigarros!

Alguns podem até achar que resolvi infernizar a vida moderna, mas não. Acho que estou meio cansado de hipocrisia. Logo começará vigorar a lei “nada exagerada” que limita ainda mais a vida dos fumantes. Sim, fumantes, estes seres “desprezíveis”. Algumas décadas atrás Hollywood e a Tv nos venderam o hábito de fumar, não que precisasse, mas parecia charmoso ser fumante. Fumar conferia uma espécie de Status. Havia o jeito pessoal de se pegar no cigarro, a marca com a qual você se identificava, as propagandas de cigarro – belíssimas por sinal-, e os atores e atrizes que fumavam maravilhosamente nas telas. Bem, nada disso é desculpa ou funciona, quando se trata de fumantes. Pois quem o é, em geral é por “ansiedade”. Já viram um fumante que diz que fuma por esporte?! Não, quase todos fumam por que são altamente ansiosos.
Além disso, eles fumam porque o cigarro está a venda. O governo incentivou e financiou a plantação de fumo no passado, e até hoje arrecada altíssimos impostos em cima de quem fuma. As fábricas continuam vendendo, e pasmem, as novas gerações voltaram a fumar como nunca. Então, o fumante paga pelo direito de fumar.
No entanto, os governos do mundo resolveram criar uma nova espécie de pária social: o fumante. Ele saiu da sua condição de ser existencial, de charmoso, de viciado, ou de simples pessoa que gosta de estragar sua saúde, para uma espécie desprezível... É muito interessante este processo. Já repararam que as pessoas, que não se conhecem, raramente se dão bom dia, ou boa tarde, ou boa noite. Raramente fazem ou falam algo gentil. Mas, contraditoriamente, aqueles que não fumam, agora têm “licença” para agredir os fumantes. Bem, era tudo o que precisávamos, licença para espezinhar outro ser humano. Você está fumando, quietinho, ao ar livre, longe de todo mundo, aí alguém passa perto – poderia passar em qualquer outro lugar, mas passa exatamente ali – e diz: “Odeio fumaça! Credo, não suporto cigarro!” E, claro, a frase é endereçada direta ou indiretamente ao fumante. Ser gentil ninguém é. Que bom seria se as pessoas passassem por nós e dissessem: “Como você está bonito hoje!” Ou, “O dia está belíssimo! Bom para sorrir e ser feliz!” Mas, não, elas preferem deixar de mau humor a pessoa que estava fumando, ali, quietinha no seu canto.
A nova lei irá funcionar, mas antes, tiveram que dar “licença” aos não fumantes, uma licença social, para agredir os fumantes. E eles agridem, fantástico isso não?!
Bem, mas estou divagando. O caso é que após sofrer com problemas respiratórios no inverno ao longo dos três últimos anos, em Moema – São Paulo – descobri na última semana a causa do meu problema, (E, pasmem, não eram os fumantes!) Era fumaça! Mas não era fumaça de cigarro. Não!! (agora criarei inimigos) Era fumaça de forno-a-lenha! Este decantado produto da culinária, que não se come, mas que faz comida, polui o ar de Moema! E não é pouca poluição! É muita!! Quando respirei fundo, e senti um cheirinho de fumaça, que fazia meus olhos arderem, e tornava a minha respiração difícil, das 17 horas até as 22, percebi que havia um cheirinho leve mais peculiar no ar, lenha queimada. Dei uma caminhada em torno do quarteirão do prédio onde vivo, e fui um pouco mais além. Contei oito pizzarias com forno a lenha!
Alguém consegue imaginar a quantidade de dióxido de carbono que um forno a lenha coloca no ar?! Pois bem, comecem a imaginar... Nem cem mil fumantes, todos apreciando o seu cigarrinho ao mesmo tempo fazem o mesmo estrago. Bem, aí, o cara que destratou você na rua por que você estava simplesmente alimentando seu carinhoso vicio e dando um tempo na ansiedade, telefona para uma pizzaria, e claro, ela tem de ser de forno a lenha!! Este “animal de teta” (antiga expressão interiorana cujo significado está perdido) que pentelhou você está te obrigando a respirar um monte de fumaça, e você... bem, você não tem autorização social para destratá-lo.
Engraçado como um fenômeno semelhante aconteceu com os nossos preciosos veículos automotores. Nos obrigaram no presente ano a fazer a inspeção veicular. Cujo sentido é terminar com a poluição, no entanto, os veículos que são obrigados a fazerem a inspeção, não são poluentes realmente, pois são os de 2009 até os de 2003. Veículos novos e razoavelmente regulados. Bem, e aquelas velharias que andam poluindo a torto e a direito nossas ruas?! Que provocam acidentes, e que entulham as ruas? Por que aqueles veículos que realmente poluem não estão na lista?!
Bem, companheiros fumantes, agora que nos colocaram na condição de párias sociais, não devemos ficar sozinhos. Vamos trazer para junto de nós os donos de carros velhos e pizzarias com forno a lenha. E se localizarem padarias que ainda tenham a engenhoca, por favor, fumem ao lado do dono e esperem ele reclamar....aí...aí...você já sabe o que fazer.

Sobre mercados e supermercados!


Alguns dias atrás vivi um típico momento da pós-modernidade. Um daqueles instantes que nos fazem sentir toda a dimensão de nossa própria idiotice. O fato ocorreu no caixa de um supermercado. Uma senhora da classe média paulistana empacotava os seus produtos numa grande sacola de tecido, onde estava escrito algumas baboseiras e a palavra “reciclável”. Por ter economizado diversas sacolas plásticas – fornecidas pelo supermercado – ela ganhou “pontos” que significam um desconto pífio nas próximas compras. Assim que ela saiu triunfante, falei educadamente para a moça do caixa: “Agora pode me dar todas as sacolas que ela economizou e mais algumas...” sorri, ela sorriu, mas fez cara de quem não entendeu. A pessoa que estava atrás de mim fez cara feia, pois entendeu e deve ter me achado um cínico. Então, vamos lá, explicarei ao leitor a mesma coisa que eu disse para o caixa e as pessoas da fila.
Quando eu era garoto, lá pelo início dos anos 70, numa pequena cidade do interior de São Paulo, o leiteiro passava numa carroça em frente de casa, bem cedo pela manhã. E eu, às vezes junto de minha irmã, saía ao seu chamado com uma garrafa de vidro de um litro, enchíamos de leite fresco e pagávamos o carroceiro. O mesmo acontecia com o pão, fornecido também por uma carroça, isso quando minha mãe mesma não o fazia.
Aos domingos, meu pai nos permitia uma espécie de dádiva, nós poderíamos ir buscar na pequena fábrica de tubaína, exatamente duas unidades da bebida. Era a glória, sentir aquele cheirinho de rolha úmida misturada a açúcar. Sentíamo-nos importantes, e depois da macarronada tomaríamos o nosso refresco, que deveria sobrar para o jantar.
Ás quintas-feiras minha mãe fazia a feira, e levava na mão uma grande sexta feita de bambu, às vezes uma sacola feita de tela de plástico. Ah, o carrinho de feira foi algo que demorou para aparecer...era uma grande novidade... mas, cara. Na famosa “compra do mês” meu pai ia sozinho ao supermercado, às vezes ao armazém, e voltava com um grande saco branco, chamado de saco de “estopa”, mas que “estopa” não era, voltava lotado. Eu e minha irmã podíamos nos divertir ajudando minha mãe a esvaziá-lo. Então, para a nossa surpresa – não que não soubéssemos – ganhávamos exatamente dois danones sabor morango. Ninguém chamava iogurte de iogurte, era Danone mesmo. O saco de “estopa” virava “pano-de-chão” e guardanapos de cozinha.
Os restos de alimentos colocávamos todos numa grande lata, eternamente suja e mal cheirosa, a “lavagem”, uma vez por semana o “lavageiro” passava e levava a suculenta mistura para alimentar os porcos. Estes porcos e alguns outros animais, as vezes voltavam, também de carroça, numa espécie de açougue improvisado durante a semana.
Brinquedos, nós ganhávamos de presente apenas em dois dias do ano: aniversário e natal. O dia das Crianças demorou muito até conseguir se fixar. Para, além disso, não tínhamos outras vontades. Brincávamos o dia inteiro na rua, após irmos pra escola e fazermos nossas tarefas, assistíamos uma hora de TV por dia, pois não havia programação de desenhos animados superior a este horário.
A noite, depois da novela das oito, que era as oito, saíamos todos para fora, onde os adultos ficavam conversando no portão e nós brincávamos de roda e de todas aquelas coisas de criança que hoje chamam de “folclore”. Alguns adultos brincavam conosco também. A grande diferença social entre o menino mais rico e o mais pobre é que havia o “dono da bola”, e nós tínhamos um grande poder contra ele, se fizesse muito “doce” brincava sozinho.
Com o passar dos anos tudo isso mudou. Nem preciso dizer muito. Criaram um mar de refrigerantes, engarrafados, cujos cascos precisavam ser devolvidos. Depois, fizeram as latinhas, depois as garrafas pets. O preço caiu e caiu e caiu. As pessoas passaram a tomar muito refrigerante... O leite, foi para o saquinho, depois virou leite “B”, depois leite “A”, e finalmente leite “C”, anos tomando aquela porcaria... Então colocaram tudo em caixinhas, claro os preços subiam a cada nova mudança. Nos supermercados surgiram os empacotadores, e os pacotes, de início de papel, depois, sacolinhas plásticas... e, claro, essa comodidade nos custou mais caro.
Rapidamente, nos explicaram que a carne deveria ser comprada num açougue, mas isso durou apenas alguns anos, pois logo disseram que os açougues eram sujos e que deveríamos comprar nos supermercados. Então, a carne ganhou bandejas plásticas, ainda possuem balcão frigorífico para atender nossas necessidades, mas fazem isso bem devagar para que peguemos a carne que está a disposição e não a que realmente queremos. O universo “Danone” cresceu tanto que descobrimos que o nome é iogurte, e agora os temos de todos os tipos e tamanhos, ficou acessível, mas ainda assim... é apenas mais lixo...
Criaram uma infinidade de brinquedos novos, e depois os brinquedos a pilha, e mais tarde os eletrônicos... E, datas e mais datas onde as crianças ganham mais e mais brinquedos. Aos poucos o Capitalismo e os capitalistas iam nos encantando com as facilidades do mundo moderno. Engraçado é que nenhum deles fazia pesquisa de mercado ou nos consultava para saber se gostávamos ou não das mudanças. Não, não gostávamos, aqueles que têm boa memória se lembram que havia resistências. No entanto, os produtos antigos sumiam, e apenas os mais caros ficavam. Pagávamos o preço.
Muito tempo se passou até que as “facilidades” da vida moderna ficaram realmente acessíveis a todos os bolsos. Claro, com diferenças, os pobres conseguem comprar um monte de roupa barata hoje, mas a qualidade, tsc tsc tsc, o tecido vira lixo num instante. E nem os ricos escapam dessa lógica terrível.
Bem, justamente agora, que eu posso consumir, que você pode consumir, nos vêm com essa estória de que o excesso de consumo irá destruir o mundo. Que o lixo está transbordando por todos os lados. Que devemos levar sacolas para os supermercados... que refrigerante engorda, etc, etc, etc. Depois de praticamente dementarem as nossas crianças com uma extensa programação idiotizante de TV e as bombardearem o tempo todo com noticias sobre violência e mais violência, dizem que precisamos fazer uma “auto-crítica” social, a começar pela sacolinha plástica do supermercado...
Muito bem, aqui vai minha auto-crítica: não pedi para que ocorresse nenhuma mudança, resisti quase contra todas elas...amoleci com os anos, e agora gostei. Não vou parar de consumir. Não irei reciclar nada. Não cooperarei! Para mim, ninguém deve cooperar. Jamais precisaram de nós para fazer nenhuma mudança, quando realmente quiserem mudar alguma coisa eles mudarão. Mas, não me venham dizer que eu tenho que fazer sacrifícios voluntariamente e agüentar essa porcaria de “ideologia” politicamente correta para fazer a minha parte. Eu e minha família, meus amigos e quiçá, meus inimigos, já pagamos por tudo isso. Pagamos caro ao longo dos anos. Escolheram por nós. Enfiaram produtos e mais produtos em quem nada pediu. Pois bem, criaram necessidades inexistentes... que agora as satisfaçam, ou as retirem do mercado.
Se eu não estou preocupado com as crianças do futuro? Não, eu não tenho filhos. Você tem? Bem, eu tenho uma péssima notícia pra você: os ricos continuarão consumindo tudo o que puderem, enquanto a classe média e os pobres caem nessa balela de fim do planeta terra. Cá para nós, quando quiserem salvar o planeta eles salvarão, nunca nos pediram opinião, agora querem cooperação... Tem dia que a gente se sente otário mesmo, não é?!