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SUICÍDIO EM SEIS CENAS

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PAFT!!
Acorda lento e preguiçoso, depois de esbofetear o relógio que, indignado, atirou-se do criado-mudo num baque surdo sobre o tapete, e este cortezmente, mas não sem um certo sacrifício, amorteceu-lhe a queda.
_ Mais um dia! - suspira espreguiçando-se. Os olhos estreitos, apertados, denunciavam o filme que assistira madrugada a dentro.. Os cabelos revoltos testemunhavam mais um sono agitado. A custo decide-se abandonar o leito, dum salto? Não, bem lentamente, sentindo já um gostinho de saudade. Descalço pisa os frios azulejos do banheiro. Mira-se no espelho, como que observando o estragoque a noite fizera. Um estrago típico, sempre ocasionado pela noite, ela remodela continuamente as faces, os cabelos, os corpos mais descuidados. O espelho o consola:
_ Afinal, quem é belo ao levantar-se? As mais belas mulheres, depois de uma noite onde brilham como estrelas acordam e levantam-se com olheiras, o que não se dirá então dos homens que com elas dormiram?
Satisfeito com a alocução do espelho tomou da escova de dentes e, numa batalha insana, que jamais será vencida até a próxima refeição, tenta transformar o que é amarelo em branco, e oque cheira mal em aroma de menta. Depois atirou-a atordoada e zonza para um canto da pia.


***


Caminhou decididamente por entre os pingos de chuva fria, que castigavam os passantes pelo pecado de acordar cedo. Sabia que mais tarde estiaria, o frio fugiria aos primeiros raios de sol, por isso não se abrigara, preferira enfrentar desabridamente as intempéries. Apesar de sua decisão a chuvinha fria teimavba em cair. Um companheiro de desgraça, há mais tempo íntimo da chuva, cumprimentava-o dizendo:
_ Logo passa, é chuva de molhar trouxa!
_ Sorriu para o desforço de amizade, sentiu-se o trouxa.
O ônibus freou bufando no ponto, engoliou-os num instante. O monstro roncador sai de estômago cheio, sem jamais digeri-los apesar de intentá-lo.
Sentou-se num banco individual, ouvindo um “ uf” abafado do assento ao suportar-lhe o peso.
É, estava pesado, estava gordo. Apalpou as peles caídas, frouxas, de músculos frouxos, preenchidos por tecido adiposo, que sentia um sádico prazer em seu serviço. Indubitavelmente gordo, precisava fazer um regime. Pensou alguns instantes e num último bocejo concluiu:
_ Todo mundo está gordo, todo mundo está precisando fazerr regime...
Animado com este auto-consolo mira a paisagem que se deforma pela janela. De dentro de um ônibus tudo o mais que esteja fora se deforma. A realidade é quarenta e oito passageiros sentados e trinta em pé.
Um velhinho, arcado pelos anos, sentado à sua frente, não podendo supitar uma cusparada, escarra quase junto a seu pé. A massa pegajosa, enojada de si mesma, com complexo de inferioridade causado pela determinação social pedia para ser pisada. Num ato de misericórdia o velhinho esfrega-lhe o pé, não obstante a repugnância de sua botina, emprestando inocência ao espalhado gozo de sua epiglote.
O estômago não se revolta, promete fazer o mesmo quando tornar-se .velho. Todos prometem.

***


A mesa de trabalho testemunhava sua eficiente ineficiência. Abarrotada de papéis que o conclamavam à ordem em coro. A mesa, por sua vwez, era aquela amiga compreensiva, sempre disposta a receber maiss e mais papéis, sem julgá-los, nem avaliá-los, eram insignificantes e críticos papéis. Pensava: Todos os papéis são críticos e insignificantes.
A cadeira estofada amofinava-se em tê-lo que suportar horas à fio. Sentia-se ligeiramente aliviada quando ele se levantava por alguns instantes para tomar “ aquele café “ , cujo sabor conseguia variar mais do que o humor do chefe. E, no mais das vezes, era tão fraco que mal possuía forças para sair da garrafa, que a custo o guardava em seu bojo. Quente, parecendo mais uma paixão requentada pela rotina, do qe um resultado do trabalho de uma desconhecida Maria. E quantas paixões não são o resultado do trabalho detantas desconhecidas Marias, que cam e recoam o resultado da rotina de seus sentimentos velhos, pretos e cansados? Tão cansados que mal têm força para vencer seu bojo e exteriorizarem-se em minguada xícara de café.
Lá fora chovia, contrariando todas as suas expectativas, teria um almoço molhado. Os almoços molhados o odiavam. Odiavam-nos as gotas frias de chuva que cairiam sobre ele. O seu suor afogado dento de uma capa plástica para chuva, detestava-o.
Comeria pastel, um pastel engordurado que lhe negaria uma azeitona, não se comprometeria a uma mordida se tivesse escolha. mas, a azeitona, esta, em combinação com o pasteleiro, ele negaria.
_ Por que os pastéis escondem as azeitonas? - pensava.
Mira a chuva pela janela e as vidraças frias declaram-lhe o veredicto:
_ Chuva, suor e pastel sem azeitona!

***


O dia avançava. Ouvira a medíocre conversa departamental por tempo demasiadamente longo. O tagarelar ritmado do bater das línguas nos céus das bocas, com estalidos junto aos dentes, aliado ao barulho metralhar ,das máquinas de escrever atordoavam..
As inquisidoras pilhas de papéis expandiam-se ante sua visão aterrada. Os olhos do chefe fuzilavam-no de quando em vez. Promessas terríveis podiam ser lidas neles. Mediam-no e aos papéis. A sua Olivetti suava e em meio à sonoridade burocrática sentia-se Nikita Magalof solando um concerto para Máquina de Escrever E Grande Orquestra, à cuja testa estavam “ olhos fuzilantes” , um solado solista e o real corpo burocrático de câmera.
Os ponteiros do relógio que se dependurara à altura do teto não se decidiam a marcar o fim do expediente. Havia uma maléfica combinação entre eles parajamais chegarem ao ponto desejado. Vislumbravam a mediocridade modorrenta com ar de superioridade, olhou-os desanimado.
O ônibus lotado e mal cheiroso das seis horas da tarde o aguardava ansioso. Descubriria todos os desperfumes. Embriagaria-se na dana macabra de curvas e freadas, num roçar provocante que o torceria e retorceria num higiênico salvaguardar íntimo.
Ônibus das seis é esfrega-esfrega sem prazer, é ser amante insaciável de todos sem saciar nenhum.

***

A televisão brilhava nas trevas da sala, pretendia-se um cinema no melhor Tchnicolor. Sorridente tentava hipnotizá-lo com a técnica da multiplicaidade que atordoa.
Sentara-se na poltrona aureolado pelo direito. Arrotava uma cerveja cuja lata espremia numa das mãos, num inútil esforço de arrancar-lhe algo mais que ela mesma não pudera ou não quisera oferecer. Nba dúvida maltratava-a. O cheiro azedo de “ ceva” embebedava o ar.
O telejornal ensaguentava a tela. Em quinz\e minutos ele já contar oito mortos e uma queda de avião com um morto coletivo de duzentos e setenta e seis passageiros. As guerras, guerrinhas e guerriúnculas progrediam. A gasolina subira. Congelaram o seu salário por três meses. Proibiram a greve. A inflação, essa cria sem pai, que não obedece babá e nem guarda de trânsito, subira e governava o país.
Ouviu uma musiquinha irritante lembrando-o que assistiria ao capítulo 178 da novela...que novela? Qualquer uma, todas as novelas são iguais. Comprava a realidade e a ilusão que ela vendia.

_ Seu idiota! PAFT!!! - grita a mocinha esbofetando o galã, escandalizada com seu abraço. Sentiu-se o idiota: homem e mulher, amando e brigando e desejando...I D I O T A.
As sirenes dos carros anunciavam mais um filme policial. Uma cabeça espatifou-se a tiros antes que soubesse se queria vê-la desmanchar-se num monte de meleca.
_ Hei Joe, é o chefe falando, mande o Smith até aqui, necessito reforços. Estão perseguindo Mary Jane na Stradfore Street, câmbio?! Está me ouvindo Joe? Joe? Joe? Joe não mais o ouvia.
Desfilaram os mesmos personagens desfigurados com outras máscaras, todos os dias, sempre iguais. Chegara ao auge o maniquísmo.

_ Olha o Gongo Ele cantou bem ou não cantou? Vai ganhar o prêmio ou não vai?

_ Todo mundo aí de casa dançando a dança do franguinho!

Vamos fazer uma pausa para os comerciais.

_ Suas mãos vão ficar mais macias com o novo detergente: Rasp! Rasp!

_ Status! Segurança! Este É o carro do ano!...



* Click!



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